Luciane Carvalho
Pudim de morango é um curta-metragem de animação dirigido por Irmã(o)s Wagner, de 1979. Antes de dissertar sobre o filme, vale a pena um pequeno debate sobre a autoria. O referido grupo, formado por Ingrid, Elizabeth, Rosane e Helmuth Jr., sempre se identificou como Irmãos Wagner. Nos últimos anos, com a circulação de versões digitalizadas e restauradas de seus filmes, em conjunção com os debates de gênero, colocou-se em questão: um grupo formado por 3 mulheres e 1 homem, deve atender à norma culta da língua portuguesa e admitir o “masculino universal” ou entender a maioria feminina do grupo como uma nova orientação de nomenclatura? Irmãos ou Irmãs Wagner? O grupo prefere manter o nome pelo qual se tornaram conhecidos. Entretanto, prefiro aqui recorrer ao Irmã(o)s Wagner, num exercício de adaptação de linguagem.
Filhas e filho do consagrado fotógrafo curitibano de ascendência alemã Helmuth Wagner, o grupo destacou-se nas décadas de 1970 e 1980 pela produção de curtas-metragens de animação, que circularam pelos principais festivais de super-8 do Brasil, conquistando prêmios e atenção. Muito jovens, ainda adolescentes e jovens adultos, criaram uma filmografia que transita entre o lúdico, o experimental e a consciência da preservação ambiental. Frequentadores da Cinemateca do Museu Guido Viaro/Cinemateca de Curitiba, apadrinhados por Valêncio Xavier, criados numa família de sensibilidade artística (a mãe, Edith Pitz Wagner, era desenhista e pintora), Irmã(o)s Wagner são uma amostra daquela que foi intitulada Geração Cinemateca, formada por jovens que tiveram sua formação cinéfila influenciada pelos cursos e sessões da pequena Cinemateca curitibana.
Pudim de morango é, certamente, o filme do grupo que menos circulou, mas que possui uma história interessantíssima. Em termos formais, é uma animação em super-8 que demonstra habilidade e maturidade no uso de recortes de jornal e desenhos em acetado. Em termos de discurso, a colagem caótica de várias camadas incomodaram a comissão da V Mostra Nacional do Filme Super 8, realizada na Escola Técnica Federal do Paraná em 1979, onde o filme foi inscrito e retirado da programação, juntamente de O mágico (Hugo Mengarelli), Morfeu e Minerva (Pedro Merege Filho) e Escura Maravilha (Fernando Severo). Tal ato, caracterizado como uma censura, foi criticado por meio de um manifesto escrito pela ABD-PR (Associação Brasileira de Documentaristas – Paraná), Fotoclube do Paraná, Grupo Experimental de Cinema Primeiro Plano, diretórios acadêmicos das Universidades Federal e Católica do Paraná, entre outras entidades. Segundo o manifesto, lido por Homero de Carvalho na abertura do festival, a comissão estaria ignorando um debate artístico, assumindo uma posição conservadora sobre o cinema. Não faria sentido não colocar tais filmes na programação, dada a qualidade de destaque da produção de todos os excluídos, notadamente das Irmã(o)s Wagner, premiadíssimos nos festivais.
Eis uma sinopse elaborada por Ana Claudia França:
Uma mosca vive tranquilamente dentro de um vaso sanitário. Pilotando seu helicóptero parte em busca de novas fontes de energia. Os alimentos enlatados não chamam sua atenção. De repente, sente-se atraída por um delicioso pudim de morango, mas acaba caindo no epicentro de um conflito. Uma metáfora das relações de poder e suas consequências. Feito com folhas de jornal e camadas de acetato, “Pudim de Morango” é uma colagem com recortes de texto, fotografias, desenhos e cenas de telenovelas – um gênero audiovisual muito popular no Brasil. Nas folhas de jornal, manchetes abordam um momento problemático para o país, os conflitos sociais e políticos da ditadura civil-militar brasileira (1964-1985) (FRANÇA, 2021, p. 154).
Já nem seus primeiros segundos o filme emula, com humor, a censura a que eram submetidos os filmes durante a ditadura militar: “este filme é proibido para menores de 3 anos e maiores de 90”, sobre uma página de jornal com anúncios de filmes e cinemas.
Situações da política nacional pipocam também com recortes de notícias referentes a “disputa”, “duelo”, “altos índices de violência”, explicitando as referências com a inserção de um trecho de filme onde uma mulher desmaiada é agredida por um homem.
Cenas de soldados armados correndo para alguma ação, com a banda sonora declarando: “sabemos de tudo, inclusive dos meios que você usou”.
A mosca come o pudim envenenado e se intoxica, enquanto no fundo uma manchete de jornal anuncia uma notícia sobre a anistia.
Tais pontos, entre outros, mostram uma complexidade no discurso do filme, onde o jornal é o plano de fundo, não apenas literalmente, como textura da imagem, mas como uma ancoragem do lúdico da história da mosca sobre a camada da contemporaneidade e seus aspectos políticos latentes. Como num jogo de dominó, as peças ligam-se umas às outras, fomando uma narrativa inerentemente política. O que esperar da anistia? Quais os caminhos para uma transição justa para a democracia? Como lidar com o acobertamento descarado dos crimes cometidos pelo Estado?
A engenhosidade de Irmã(õ)s Wagner em utilizar essa trama de texturas narrativas é, na minha opinião, o que torna Pudim de Morango um filme dos mais importantes já realizados na cena curitibana. A construção do discurso político descaradamente escondido nos flashes de jornais e na banda sonora, falsamente dando suporte a uma narrativa lúdica das aventuras de uma mosca em busca de alimento, demonstram um domínio incomum sobre a arte cinematográfica e suas possibilidades enquanto suporte para o debate político em tempos de censura e repressão, dos quais o próprio filme foi vítima. Ainda que à época sua circulação tenha sido podada (como citado no início deste texto), este próprio fato alimenta a potência do curta enquanto testemunho de seu tempo e de sua própria crítica.