Vaga Carne

Vitor Veloso

Em um primeiro momento, ao assistir “Vaga Carne” (2019), de Grace Passô e Ricardo Alves Jr., durante a projeção no Cine-Tenda na 22ª Mostra de Tiradentes, o filme me parecia um estranho sintoma do cenário contemporâneo do cinema brasileiro, onde a relação teatro-cinema aparecia quase de forma afetada e o projeto soava extremamente distante de seu público, apenas dialogando com um bloco acadêmico, quase elitista. 

Acreditava que existia uma relação programática da forma, que utilizava dispositivos de saídas rápidas para extrair da interpretação de Grace um recurso estético que se esvaziava durante a projeção. Está claro que esse que vos escreve falhou com a obra. 

Depois de assistir três vezes após a fatídica exibição em Tiradentes, foi possível enxergar que entre a possessão “misancênica” e a literalidade das ruínas cenográficas, a suposta artificialidade do filme se traduz em uma espécie de delírio imagético, onde Grace Passô, atriz e diretora, é o centro de uma tempestade sem fim, que não só assume o caráter dramático da peça-filme, como representa uma estrutura social que vai se revelando conforme a progressão da projeção. Nesse jogo de descoberta do mundo material, ainda que o mesmo esteja presente mais no campo das ideias, o universo de “Vaga Carne” se apresenta a partir de Grace, apenas. Isso é particularmente interessante quando os debates vão surgindo e toda a pré-concepção do público para argumentar em torno das palavras-chave que vão surgindo, não possui uma solidificação própria na obra. É como se o filme suspendesse o debate crítico para criticar e provocar o próprio ato de observação. Aliás, existem espectadores que estão diante da performance de Grace. Enquanto tentamos engatilhar respostas e indagações, o frenesi inicial das imagens parece tomar conta das ações da protagonista, que regurgita a admiração com o desdém pelo corpo humano. 

Essa curiosidade pelo mundo material, transmitida em uma possessão diante dos olhos de nós espectadores, que vemos outros espectadores, acontece em um formato assumidamente peça-teatro. O espaço cinematográfico, e teatral, em “Vaga Carne” dá início a gira que vai consumindo tudo que toca, não necessariamente de forma bilateral, mas como um atropelo contínuo. A provocação feita pela personagem de Grace, soa quase como uma ironia cenográfica: “Vamos tentar dialogar, vamos? De diferente pra diferente.” 

Nesse dilema formal, apresentado como uma multiplicidade de linguagens, a noção de identidade aparece quase como uma aberração do debate sociológico. Se por um lado, há uma defesa de que a “identidade” é a negação do outro como afirmação do particular, por outro temos uma possessão que assume a tela para no corpo daquela mulher negra, perguntar: “Quem é essa mulher?”. Assim, para cada interação com o público, a obra sustenta um desconforto de encarar uma intimidade que se apresenta como pública, referenciando debates públicos inclusive, mas que é invadida, ao mesmo tempo que invade. É verdadeiramente uma gira, onde ocupação e possessão se confundem entre identidades. 

Não existe uma direção argumentativa direta, mas entre as interrupções sonoras e o falecimento diante da cabine, a projeção vai se apagando com o rosto de Grace projetando uma representação de Brasil que dói tanto quanto pode-se admirar.