Orfeu Negro: As Representações De Mira de Tal e Euridíce e como elas se perpetuam no imaginário coletivo contemporâneo.

Juliana Mendes

*Juliana Mendes, socióloga, mestra em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal do Maranhão e produtora audiovisual. Pesquisa e trabalha com cinema, principalmente o cinema brasileiro desde 2017.
contato: j.mendes-@hotmail.com instagram: @xoleans

 

São vários os motivos do tema de Orfeu: o diálogo com animais e a natureza onde vivem; a procura pela origem dos homens e a divulgação disso; a busca do Velocino de ouro; a busca do amor perdido; a culpa pela separação definitiva deste mesmo amor; a experiência da descida ao Inferno, que gera um conhecimento singular, tudo isso movido pelo canto, expressão pessoal transformadora, que a tudo toca e cuja ação ritual abre caminhos para a espiritualidade. O Orfismo, iniciado após a descida de Orfeu ao Inferno, proclama e promove o encontro eterno entre homens e deuses, inimaginável pela religião oficial grega (OLIVEIRA. P. 19, 2006).

As representações teatrais de Orfeu são datadas de óperas desde o século XVII. Essas representações são baseadas no mito grego de Orfeu de Trácia. Ele era um virtuoso musico, corajoso e que através da música tocada em sua lira atraia Mênades, que são Ninfas seguidoras de Dionísio e mortais. Até conhecer Eurídice, mulher pela qual ele desenvolve uma paixão repentina e avassaladora.

Os mitos devolvem aos homens os seus próprios conflitos; como metáforas, eles “desempenham sua função de falar” aos “níveis profundos do ser humano”. Com o correr do tempo, essas figuras de linguagem podem ir perdendo a capacidade de serem absorvidas, mas os artistas, “de acordo com suas disciplinas e artes”, fazem-nas emergir “do contexto contemporâneo da experiência (OLIVEIRA. p. 4, 2006).

Mas o sentimento que Eurídice desperta em Orfeu, ele causava em outras mulheres que conviviam com ele. A mais conhecida no imaginário brasileiro foi Mira de Tal, devido a obra Orfeu da Conceição de Vinicius de Moraes. Que posteriormente se tonou filme em uma versão realizada em 1959, pelo cineasta francês Marcel Camus, chamada de Orfeu Negro e em 1999 realizada por Cacá Diegues e intitulada apenas como Orfeu.

O que as obras tem em comum é que Orfeu continua um musico virtuoso e sedutor, mas nas obras brasileiras o cenário de uma vila é substituído pela realidade da favela em que as obras foram adaptadas, no livro e na 1ª versão do filme, uma favela mais tranquila, sem a existência do tráfico, pois ainda eram os anos 1950, e na 2ª versão é representado um cotidiano de forma mais brutal, com a violência existente nos morros cariocas nos anos 1990.

Nas obras existem vários empecilhos para existir um relacionamento entre Orfeu e Eurídice, seja a existência de Aristeu, um apicultor que também era apaixonado por ela e que a estava a perseguindo por nutrir o desejo de possui-la, ou da morte que a seguia no livro e no filme de 1959 e as diversas mulheres do morro que Orfeu seduziu no filme 1999. No entanto, o ponto de importância desse ensaio é tratar do contraponto das personagens Eurídice e Mira de Tal, nos filmes realizados, e como é possível a história de Mira existir no nosso cotidiano.

Os filmes foram inspirados no livro e em ambos foram acionadas camadas, eles têm histórias paralelas diferentes, mas uma das coisas que tem em comum é a existência de três personagens centrais. Orfeu, que é ambas as versões é um virtuoso violonista, compositor de samba; Eurídice, moca ingênua recém-chegada ao Rio de Janeiro e Mira de Tal, uma mulher sensual e independente que é a noiva de Orfeu.

UM BREVE APROFUNDAMENTO NA FIGURA DE ORFEU

O Orfeu da mitologia conquista deuses e mortais através do som de sua lira. Ao transportar Orfeu para o morro carioca, Vinícius de Moraes levam o personagem ao universo do samba, de modo diferente. Para Camus (filme de 1959), ele é um homem trabalhador, motorista de bonde, que leva o samba como um divertimento, distração da realidade de um emprego cansativo e formal, e que por ter um dom de encantar através das melodias.

Orfeu é uma espécie de dândi e exibe uma coleção de camisas e ternos finos, os cabelos cuidadosamente trabalhados em trancinhas, óculos de leitura que lhe dão um ar intelectualizado, celular sempre na mão como um executivo e um laptop de última geração onde compõe suas canções (NAGIB, 2006, p. 122).

Para Diegues (filme de 1999), ele vive da música. É um sambista de prestígio. Um pacificador, que usa sua influência para mediar conflitos entre traficantes e policias. Ele age como um líder, aparece nas televisões, é amado pelas mulheres do morro, agindo como um Don Juan, e é também amado pela comunidade assim como o Orfeu de 1959.

AS MULHERES DA VIDA DE ORFEU

A forma como o feminino é representado nas obras, assim como no mito grego é centralizada nele, podemos relacionar Orfeu a outro personagem da literatura que é o Don Juan, ambos são sedutores de mulheres, feito que para Dom, as conquistas amorosas são motivos de orgulho, enquanto para Orfeu, podemos perceber que as conquistas acontecem de uma forma mais espontânea.

Na versão cinematográfica de 1999, em que os tempos eram modernos e menos conservadores no que se refere a representação as telas, Orfeu é um homem que já se envolveu com todas as mulheres do morro, deixando-as apaixonadas, mas no fundo ele não gostava de ninguém.

Mas para as obras em geral é através da figura de Eurídice que surge o destaque para Mira de Tal, essas personagens, podemos pensar como as mais importantes da vida de Orfeu, sendo elas completamente antagônicas. a primeira surge e de maneira ingênua se torna o amor da vida de Orfeu, a pessoa na qual ele “desce ao mundo dos mortos” referência e analogia a morte oriunda do teatro, para salva-la e a segunda, independente, sedutora e livre, quando é trocada começa a sentir desejos de vingança e mágoa.

 

EURÍDICE E MIRA: FIGURAS ANTAGÔNICAS

No filme de Camus (1959), Eurídice surge em tela sendo a primeira personagem apresentada, ela chega na cidade em pleno fervor de um carnaval de rua. Moça pueril, se assusta com toda a movimentação da festa. Logo é visto que além da pureza, ela é proativa, buscando ajudar os outros. E no meio dessa festa ela se depara com Orfeu e Mira, mas sai em busca do Morro da Babilônia em que se hospedara na casa de sua receptiva prima Serafina, fugindo de um homem vestido de morte que a persegue.

A paixão dos protagonistas em ambos os filmes ocorre instantaneamente, tão breve quanto a festa de carnaval. Toda a construção dela, desde a forma contida ao falar, gestos suaves, roupas neutras e recatadas nos passam a ideia do que era a mulher ideal naquele período. “As variações na escolha do vestuário constituem indicadores sutis de como são vivenciados os diferentes tipos de sociedade, assim como as diferentes posições de uma mesma sociedade” (CRANE, 2006, p. 22). Esse imaginário vez ou outra assombra a vida das mulheres na contemporaneidade que ainda tem a estrutura de uma sociedade patriarcal que almeja o feminino como figuras que devem se portar de maneira recatada, calada e virginal.

Na versão de Diegues (1999), Eurídice vai ao Rio de Janeiro após a morte do pai. Ela se demonstra retraída, chega de avião na cidade em pleno carnaval, vinda do Acre e não se deslumbra como toda a movimentação que vê na cidade, que no decorrer da trama

se demonstra hostil. Ela procura abrigo na casa de sua tia Carmem, mulher que já teve um envolvimento com Orfeu, e não demonstra muita receptividade com a chegada da sobrinha.

Nessa versão ela não é mais tão ingênua, mas age de maneira excessivamente respeitosa, sempre chama os outros de “senhor ou senhora”. Esse comportamento, no entanto, é quebrado quando ela conhece Orfeu. Eurídice sai da defensiva, tenta não demonstrar o afeto que começa a sentir, mas é visível que ela se encanta pelo Don Juan do morro.

Mira de Tal, em todas as versões é uma mulher completamente diferente de Eurídice. Ela é comunicativa, debochada, externa muito o que sente e também é extremamente apaixonada por Orfeu. Amava o carnaval e era destaque com sua roupa de rainha. De todas as mulheres de Orfeu, podemos perceber nas obras que ela foi a que mais o amou. Um amor do qual ela não conseguia se imaginar sem.

No filme de Camus (1959), o brasil e o mundo estavam em um período de mudanças, as mulheres começavam a ter mais liberdades e conquista de direitos. Mira como uma mulher negra, moradora do morro, não tinha escolha a não ser trabalhar para sobreviver. Então financeiramente e sexualmente ela era uma mulher livre, algo visto como diferente principalmente nas camadas sociais mais abastadas e brancas. Ela deseja Orfeu porque o ama, não porque precisa de um protetor como Eurídice.

Embora a visão dominante ainda fosse aquela, na qual os sexos eram diferentes por natureza, negando a criatividade feminina, posicionando- a no universo convencional, ou seja, no ethos familiar, muitas mulheres já haviam conseguido tornar possível uma vida mais livre (OLIVEIRA. 2008, p. 24).

Essa Mira se mostra como determinada a conseguir o que quer, e um de deus desejos é casar com Orfeu, para isso ela mesma compra sua aliança de noivado, quando o mesmo diz que esta sem dinheiro. Esse comportamento autônomo em meados do século XX é diferente do esperado para as mulheres, incomoda os homens, por vezes até o próprio Orfeu.

Mira é transgressora, ela se porta como um ser desejável, através dos movimentos, roupas decotadas, na altura dos joelhos, escuras e justas, adereços como grandes brincos de argolas, salto alto e uso de maquiagem. Ela é uma representação de um feminino que está a frente, que nas décadas posteriores vieram a chamar atenção por suas lutas por direito à liberdade feminina.

No filme de Diegues (1999), Mira é a primeira personagem a aparecer em tela, em uma cena nua, junto a Orfeu. Já estávamos quase no século XXI, essa versão se mostrava ainda mais sensual e gráfica que a primeira. Seguido sensual, livre, lasciva. Era rainha de uma Escola de Samba, capa de revistas masculinas e poderia ter o homem que desejasse.

 

CONSIDERACÕES FINAIS

Nos filmes observamos personagens que são de um mesmo período histórico, mas com ações completamente distintas, o figurino, os gestos só evidenciam a posição de diferença em relação a como Orfeu e a sociedade observam Mira e Eurídice. Uma é independente e a outra precisa ser salva, em 1959 mais que em 1999. Na segunda representação tem um adendo de que apesar de forte, fazendo referência ao que as mulheres no geral haviam se tornado, mais autônomas, perto de Orfeu, diante dos perigos do morro Eurídice se desarma.

As representações de Orfeu, Mira sempre se manteve preocupada com a rejeição afetiva, ela tenta de todas as formas agradar aquele homem, as vezes sendo incisiva, porém, ela estava apaixonada, por um homem que visivelmente apenas a usa, fisicamente e para ter alguém ao lado. Ela para ele é apenas um passatempo, alguém que por muitas vezes é tratada com desprezo e grosseria enquanto tenta demonstrar amor.

Com a chegada de Eurídice, Orfeu logo demonstra uma paixão instantânea, ignorando completamente a sua então noiva, e ela mesmo recém-chegada sabe que ele tem alguém na vida, mas parece não se importar em viver uma relação com ele, o que chega até a ser controverso tendo em vista sua aura virginal. Em todas as versões do filme, Orfeu e Eurídice estão dispostos a irem embora para ficar junto ignorando os amores deixados e a morte que a persegue na versão de 1959 em forma de um sujeito fantasiado e em 1999 na figura de Lucinho, chefe do tráfico no morro.

Podemos pensar nessas duas personagens femininas o que a sociedade espera até hoje do comportamento das mulheres. Existem Eurídices e Miras nas ruas. Uma se entregando para uma relação com um homem que só a destrata e a outra portando uma ingenuidade que faz com que ela seja capaz de tudo para ficar com aquele homem que já havia iludido tantas outras. Como observamos na versão de 1959, em que ela se disfarça, desce o morro em que estava protegida para seguir Orfeu que havia descido ao asfalto para curtir o carnaval, acreditando na promessa dele de que ficariam juntos.

Mesmo com a distância temporal e histórica entre as produções, Eurídice ainda é a representação do recatada, da perfeita mulher do lar, tímida e virgem, em um antagonismo a Mira, mulher e determinada e expansiva, que gosta de ser vista como a linda mulher que é. No imaginário de uma sociedade machista Eurídice é a mulher perfeita. Essas mulheres existem e as Miras geralmente não são as escolhidas, elas ainda são julgadas pela independência que optaram ou foram forçadas a ter porque as vezes, a nós mulheres não é nos dada a escolha.

É perceptível na obra que Orfeu não tem sentimentos por Mira, o que acarreta em brigas entre as mulheres a morte de Orfeu causada por Mira, na versão e 1959 por uma pedrada e em 1999 por uma lança. Desde o início o desejo de Orfeu para com Mira é carnal, mas ele não foi honesto, eles levaram a relação em que só uma parte era comprometida, e isso acontece com as mulheres.

Os “Orfeus” poderiam apenas agir com honestidade, mas mesmo falando que ele não queria nada, as ações masculinas de ainda procurarem mulheres que eles afirmam querer apenas algo casual gera uma confusão na cabeça de quem vivencia. Não tem como ser casual uma relação que é frequente e que mistura vários aspectos da vida. No caso do filme, mistura a comunidade, amigos, a escola de samba.

Com a chegada de Eurídice fica claro e justificável a raiva e mágoa que Mira começa a sentir de Orfeu. Ele sempre agiu de forma desonesta na prática. Ela se humilha por Orfeu que ao ver a chegada da mulher ideal a descarta como se nada do que eles tivessem vivido durante aquela relação fosse nada, e de uma hora para a outra ela deixa de ter o mínimo de importância. A vida não é fácil principalmente para as Miras.

 

REFERÊNCIAS

CRANE, Diana. A moda e seu papel social; classe, gênero e identidade nas roupas. [Trad. Ingl. Fashion and Its Social Agendas: Class, Gender, and Identigy in Clothing] São Paulo: Senac São Paulo, 2006.

NAGIB, Lúcia. O paraíso negro. In: A utopia do cinema brasileiro. São Paulo, Cosac Naify, 2006.

OLIVEIRA, Cláudia de. As Pérfidas Salomés: a representação do pathos do amor em Fon-Fon! e Para Todos… – 1907-1930. Rio de Janeiro: Edições Fundação Casa de Rui Barbosa (Coleção “Papéis Avulsos”), 2008.

OLIVEIRA, Maria Claudete de Souza. Presenças de Orfeu. 2006. 196 f. Tese (Doutorado em Letras) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo. 2006.