Rodrigo Bouillet
De acordo com a Listagem dos Filmes Brasileiros Lançados Comercialmente em Salas de Exibição 1995 a 2020, publicado em 28/03/2022, pelo Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual – OCA da Agência Nacional do Cinema – ANCINE, um total de 1.966 foram exibidos comercialmente no período. Destes, 1.176 não alcançaram sequer 10 mil espectadores, praticamente 60% das produções. Na outra ponta, apenas 154 filmes fizeram, no mínimo, 500 mil espectadores, ou seja, menos de 8% do que foi exibido.
Minha Mãe é Uma Peça 3 (2019) é o quarto filme de maior público deste período e o primeiro do ranking dirigido por uma mulher, Susana Garcia.
Neste breve ensaio, vou me ater exclusivamente ao filme em questão, sem me preocupar com os anteriores da franquia (inclusive, esta terceira parte não está nem aí para isso) tampouco com as carreiras de Susana Garcia ou Paulo Gustavo.
Em resumo, o filme é bastante preguiçoso em sua proposta, utilizando-se de diversos clichês, parecendo um gigantesco e infindável episódio de uma sitcom global do tipo Sai de Baixo, Toma Lá, Dá Cá, Vai Que Cola ou A Vila, adicionado de algumas tomadas externas. Configura-se em uma sucessão de esquetes de cunho radiofônico (não há 2 segundos de silêncio), sem qualquer gag visual, com o ritmo da montagem a serviço da personagem que detém a fala, normalmente com cada cena sendo enquadrada por dois planos abertos, desprovido de qualquer interesse por um trabalho fotografia um pouco mais relevante.
Dona Hermínia (Paulo Gustavo) é uma pessoa com ótimas condições materiais. Vive em um amplo apartamento em um bairro classe-média de Niterói e tem poder aquisitivo para viajar aos Estados Unidos quando bem entende. Ela não trabalha e isso não é uma questão em sua vida, o filme não esclarece se ela conta com qualquer fortuna acumulada nos filmes anteriores, aposentadoria ou pensão.
Todo seu tempo disponível é investido sobre a vida de seus filhos para lá de trintões. Tudo desmorona ao se descobrir velha e sem propósito quando eles decidem iniciar outros ciclos em suas vidas – Juliano (Rodrigo Pandolfo) vai casar e Marcelina (Mariana Xavier) está grávida – buscando se afastar de sua onipresença. Ela se sente escanteada com os filhos resolvendo suas próprias questões; extremamente carente, reclama da ingratidão de ambos, não sabe como repor essa falta.
Dona Hermínia tudo fala, tudo comenta, tudo desabafa, o tempo todo. Ela funciona como uma expiação dos desejos, uma voz da verdade e da sinceridade que todos gostariam de ser, e assim é retratada como desbocada, mandona, ansiosa, agressiva, possessiva, invasiva, egocêntrica, invejosa, escatológica, vingativa e competitiva.
Muitos de seus comentários são redundantes e repetitivos forçando o humor sobre a mesma piada/ocasião. Raras vezes alguma outra personagem se sente ofendida com seus impropérios, via de regra elas desconsideram, compreendem ou levam na esportiva como idiossincrasia. Inclusive, não há maiores consequências quando volta sua artilharia contra seus próprios filhos, desacreditando ou desqualificando a todo momento quaisquer aspectos de suas vidas.
Juliano e seu companheiro escapam de Dona Hermínia, pois seu foco está sobre a futura sogra milionária e esnobe, além de ela tomar partido em defesa da orientação sexual do filho. Menos sorte tem Marcelina, chamada de glutona diversas vezes e questionada sobre a opção de viver “isolada na natureza”, em um sítio distante do centro urbano.
Ao fim e ao cabo, todos reunidos, Dona Hermínia decide, unilateralmente, que vai continuar mandando e desmandando na vida de cada um deles.
O filme é um lugar sem surpresas, com seus clichês para o entretenimento facilitado ao máximo, e que não oferece perigo à sociedade conservadora, muito pelo contrário: Dona Hermínia, sem qualquer projeto para si, vazia em sua própria existência, vive a vida de outros ao viver a sua vida pela dos outros, reforçando tanto o local da mulher mãe abnegada quanto da terceira idade solitária ao não se relacionar amorosa ou sexualmente com outras pessoas. Sua missão é servir.
Um fio de progressismo vem com o debate sobre a homossexualidade de Juliano, especificamente na cena da infância, na festa da turminha no colégio, quando se fantasia de Emília, personagem do Sítio do Picapau Amarelo. Importante e muito sensível, mas que se esvai na própria trajetória de Juliano, reduzindo-se na vida adulta à aceitação familiar e à esfera dos direitos individuais mais básicos (que não são aspectos irrelevantes no Brasil) agora situados na forma mais privilegiada possível, em uma ascensão social estratosférica, ao se casar com um herdeiro multimilionário.