Lucas Reis
Frankenstein Punk (Eliana Fonseca e Cao Hamburger, 1986) inicia com um clima sombrio, a escuridão só é parcialmente desfeita por raios e trovões, a música soturna e a ventania fecham a ambiência criada pelo filme em seu princípio. Entretanto, assim que a câmera adentra o quarto em que Frankenstein está sendo criado, há uma fusão com a canção singing in the rain, famosa composição do musical de mesmo nome, conhecido no Brasil como Cantando na chuva (Stanley Donen, 1953) e o clima sombrio dá lugar a uma situação mais branda e tranquila. Essa variação de estilos e gêneros cinematográficos permeiam os onze minutos do filme.
O mito de Frankenstein é por si, uma miscelânia. A criação do monstro viria de uma ideia de união de partes de corpos diferentes para o surgimento de uma figura única. O filme de Hamburger e Fonseca funciona de forma parecida. É uma miscelânia de trechos de filmes, gêneros cinematográficos, personagens marcados na história do cinema que unidos, compõem o filme.
Dentre as misturas mais incomuns promovidas pela obra, essa união entre cinema de horror e musical chama a atenção. Afinal, o primeiro está ligado ao medo, à repulsa e a fratura da sociedade, já o segundo está ligado ao amor, a felicidade e a uma visão positiva do mundo. Mas, Frankenstein Punk se deixa seduzir por essa possibilidade de amalgamar diversas ideias. Algo que faz parte, inclusive, do pensamento comum sobre a animação que oferece liberdade para qualquer criação dos autores. Então, se a técnica animada permite a explosão de um posto de gasolina sem maiores problemas, também permite a união de gêneros, a princípio, distantes entre si.
Essa mistura de gêneros cinematográficos, o enxerto de sequências famosas da história do cinema e a importação de personagens de outros filmes também faz parte de uma fase do cinema paulista em que as metanarrativas tornaram-se constantes. Especialmente Cidade Oculta (Chico Botelho, 1985), Anjos da Noite (Wilson Barros, 1986) e A Dama do Cine Shangai (Guilherme de Almeida Prado, 1987) são marcantes por promoverem um diálogo franco com o cinema de gênero, mas sempre consciente das marcações adquiridas pelo ao longo dos anos pelas narrativas de gênero.
Os três filmes citados também marcam uma relação do cinema paulistano com a noite da cidade. Na década de 1980, São Paulo já era uma capital gigantesca, jovem e com diversas tribos urbanas caraterísticas de uma megalópole. Frankenstein Punk também carrega consigo certos traços desse ambiente urbanóide que caracteriza a cidade. Frankenstein, por exemplo, quando está passeando pela cidade, vê tudo pela primeira vez com ar de deslumbramento. Em certo momento, vai até uma casa de shows em que uma banda punk chamada Caos está no palco. Como se o personagem fizesse seu primeiro tour pela cidade e já um dos pontos mais importantes para conhecer seria o Madame Satã, famoso clube de música paulistano que fez muito sucesso na década de 1980. Foi, inclusive, o primeiro palco para várias bandas de rock que viriam a ser famosas no Brasil durante a explosão do gênero musical no país. Cidade Oculta tem algumas sequências produzidas no clube.
Logo na cena seguinte, enquanto uma moça vê o álbum da Caos em uma loja de discos, se assusta com o personagem de Frankenstein que entra na mesma loja e exclama: “um punk!”, identificando assim que as tribos urbanas tinham seus points específicos, mas ainda eram percebidos como estranhos pela sociedade como um todo. Nesse caso, inclusive, percebido como monstro, criando assim uma associação entre o punks e como eram vistos como monstros em certos espaços sociais.
O personagem já havia sido hostilizado em um restaurante chique em que um grupo de música de orquestra tocava enquanto senhoras bebericavam chá indicando que ali também não seria o lugar dele. Entretanto, o lugar do personagem seria, justamente, na noite. A ideia de modernidade está norteada por uma vida noturna. É nesse período em que a tendência seria ficar em casa, mas que uma grande cidade pode proporcionar diferentes formas de diversão. Não por acaso, o já citado Anjos da Noite se passa todo no ambiente noturno paulistano e se encerra durante o amanhecer. São os diferentes tipos urbanos que criam um panorama de diferentes pessoas convivendo e alimentando a cidade.
Na perspectiva de ter a noite como companheira fiel, como diria Raul Seixas, é ali que Frankenstein se encontra e pode ser ele mesmo. Assim, a primeira frase que ouviu será finalmente exclamada: “I’m Happy Again!”, enquanto dança pelas ruas da cidade. A animação ainda lhe cede um guarda-chuva caído do céu completando a referência ao musical americano e a liberdade experimentada pelo personagem torna-se a liberdade dos criadores em compor um universo no qual a figura histórica de Frankenstein finalmente se adequa.