Naira Nanbiwí Soares
Imagens são carregadas de signos. Significante e significado se entrelaçam, e cada espectador, com seu arcabouço próprio, sente e interpreta de maneira singular. A montagem, ao brincar com imagens e sons, também joga com esses signos. É uma das suas essências. Raquel Gerber e Cristina Amaral fazem isso com maestria em Abá (1992), um curta-metragem que atravessa tempos e sensibilidades. Sua sinopse diz: “Abá significa esperança de paz espiritual. Significa também encontro, a crença na luz e a chegada no estado de contemplação”. Você assiste, reassiste, re-re-re-assiste, Mas o filme não apenas convida à contemplação — ele nos absorve, nos carrega para dentro de um estado de entrega.
O que chamamos de transe não se explica com conceitos fixos, científicos ou unilaterais. No filme, ele acontece no instante em que o “eu” se dissolve no “nós” — no corpo, na mente e nos gestos. Como se a racionalidade se suspendesse por um momento. E, nesse estado, percebemos que o transe não está apenas no que se vê ou no que se toca, não é um privilégio humano, mas também não-humano: ele atravessa o mundo, as águas, o vento. As fronteiras entre o visível e o invisível são curvas (e não linhas) tênues.
Essa percepção já se desenhava em Orí (1989), construído por Raquel Gerber e Beatriz Nascimento. Lá, a voz de Beatriz nos conduz a um questionamento que ultrapassa o palpável, ecoando desde o oceano: “Eu sou atlântica”. Em Abá, essa herança se expande. Se em Orí tomamos consciência do que somos, do que queremos e do que lutamos, em Abá somos tomadas por uma explosão do nós no eu, engolidas por essa presença coletiva. A experiência torna-se ancestral e, sobretudo, intuitiva. Gerber e Amaral, nos mostra que, assim como Beatriz, muitas de nós experienciamos um transe-atlântico. No Sul Global, onde outras cosmopercepções resistem à olhares cartesianos, o irracional não é ausência de razão — é potência.
E o que toda esta viagem tem a ver com cinema?
Tudo.
Nos ensinaram a fazer cinema dentro de moldes masculinos, brancos, ocidentais, lineares. Mas como contar nossas histórias de forma que sejam sentidas antes de serem explicadas? Como revelar nossas dores e amores sem reduzi-los a categorias fixas? Por isso, experimentamos. E nossas experiências não são ensaios — são nossos grandes espetáculos de um tempo que não começa nem termina.
Aline Motta nos lembra em seu livro de mesmo título: a água é uma máquina do tempo. Ela nos transiciona, nos cura, nos fortalece. As águas que nos cercam são transformações, são berços e túmulos, lugares de partida e de chegada. No Atlântico, nossos ancestrais suspiraram pela primeira e pela última vez. Lamento às águas (2023), de Vilma Martins, traduz esse fluxo com a força de um grito em silêncio: “Talvez o mar possa me ajudar, as ondas podem carregar meu corpo e a água limpar meu sangue.” São 31 anos entre Abá e Lamento às águas, e entre eles, o cinema costurado por essas mulheres potentes se ergue como rio de memória. São essas águas transe-atlânticas que nos levam para uma nascente, onde as ondas ainda nem se formaram e nos curamos e curamos gerações.
Se Abá nos lembra que a cura está na disposição de sentir, Lamento às águas nos convida a acompanhar esse processo. Mas precisa estar disponível para deixar que as ondas nos atravessem. É nesse fluxo que um cinema potente, sensível e orgânico se fortalece. As mulheridades, as negritudes, as diferenças latentes colocadas em tela, montadas entre sons e imagens transe-atlânticas nos fazem lembrar: a água cura. Inclusive aquela que escorre de nossos olhos.